Scenas Contemporaneas | Page 8

Camilo Castelo Branco
ser-se o que tu és?!
--Se é!... Se me não tivesses interrompido, já sabias a razão porque o
sou... Nada de interrupções... Se começo a divagar, digo diabruras,
perco-me em abstracções, que te hão-de parecer pretenciosas, e lá vai a
historia...
--Palavra, que não te interrompo...
--Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com
Miquelina eram já suspeitas ao pai, que não se entremettia

paternalmente no negocio. Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e
Miquelina não era muito mais rica. Era possivel, e até vantajoso um
casamento. Murmurou-se n'este assumpto em casa do padre, e eu fui
consultado por elle.
Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem tão cedo
direitos ao materialismo. A pequena, porém, não tinha culpa. Eram
cousas da velha, que quebrára a perna, mas ficára com a alma inteira
para seguir o recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos,
casamento, filhos, aborrecimento, barrete de dormir, catarrho,
cangalhas no nariz, e rheumatismo.
Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do
officioso abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque não
queria dar tal passo sem o consentimento d'um tio, que fôra receber ao
Brazil uma herança, que viria augmentar consideravelmente a minha
casa.
Ficamos n'isto.
Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei
Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão não era das
que fogem quanto mais faceis se aproximam. A minha Beatriz
parecia-me boa de coração, ajuizada de cabeça, fina de espirito, e em
quanto á cara, ao corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as seducções eram
tantas, e tão a proposito que nunca tive occasião de me sentir de uma
illusão desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi
pathetica. Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao coração
com o enthusiasmo do primeiro abraço. Recebi da sua mão tremula,
como prenda, o lenço com que enxugára as lagrimas, e retirei-me com
o coração partido, mas vaidoso de esperanças, que a saudade me
dourava no meu lindo futuro.
Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram
vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei, e
fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi
tudo o que a minha alma podia dar de superior áquillo que todos os
homens sabem dizer n'uma carta de namoro.

Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram
verdadeiros... pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a primeira
carta, o coração timido que balbucia os sons d'uma selvagem
innocencia, que é a felicidade do homem que primeiro os tira do
coração d'uma virgem.
Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias
insaciaveis das suas cartas. Tristezas dôces quando me faltavam n'um
correio. Zangas sem odio, se o coração de tão longe a criminava de
ingrata. Tres mezes assim... e no fim de tres mezes... adevinha o que
aconteceu...
--Eu sei cá... morreu?
--Não.
--Veio cá ter comtigo?
--Não.
--Abandonou-te?
--Abandonou.
--Isso é incrivel!
--Acredita. Agora adevinha por quem eu fui preferido.
--Eu só te conheço a ti na tua terra...
--Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura
succumbiu ás seducções invenciveis?
--Só assim.
--Ora adeus! Tu não adevinhas, porque não sabes nada de mulheres...
--Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro muito rico?...

--Tambem não...
--Diz lá isso, que estou impaciente...
--Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que corava se o
meu halito lhe roçava nas faces, a minha pudibunda Virginia que
recebeu o meu primeiro beijo a tremer, a minha mimosa sensitiva que
parecia resequir-se á mingoa dos meus carinhos... sempre queres que te
diga?
--Pois então?
--A minha promettida esposa... fugiu com um... digo?
--Acaba, homem!
--Com um lacaio da casa!... Ólá! não fiques assim atordoado! Rite,
como eu...
--Isto é inconcebivel!... E depois?
--Depois... que queres que eu te diga?
--Que fim teve essa mulher?
--Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado
summariamente para não dar que fazer á justiça.
--E ella... vive?
--Creio que sim.
--Na companhia da familia?
--Não... Tu não me disseste que viras no Porto... Fiquemos aqui...
--Isso de modo nenhum... Has-de concluir...
--Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no Porto uma

meretriz que revelava uma boa educação, e não queria dizer d'onde era,
nem como viera áquella vida?...
--Disse... mas não se chamava Miquelina...
--Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina, é a mesma... é a
minha promettida esposa, é o anjo dos meus primeiros amores, é a
pomba alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha... É ella...
Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te quizeres embriagar
comigo, vamos ao Paço do Conde, e beberemos á saude da exc.^{ma}
Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paixão pelo infeliz
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