Os Simples | Page 7

Guerra Junqueiro
ai extremo lança dois raminhos,
A chamar
ainda por canções de ninhos
E a dizer aos astros um adeos final!
Tal o pastor santo, já de vez cahido,
Já corcovadinho, flebil, quasi
morto,
Arrimado ao velho baculo torcido,
Nada ouvindo, nada, com
o duro ouvido,
Vagamente olhando com o olhar absorto,
Ia pelos montes na tristeza infinda
D'um coração ermo, com a morte
aceite,
A pedir aos anjos para ouvir ainda
Badalar ovelhas n'uma
noite linda,
Quando a lua os campos alagasse em leite!...
Seu bisavô fora guardador de gado,
Guardador de gado seu avô, seu

pae;
Creou filho e netos como foi creado,
E morreu ditoso porque o
seu cajado
Seu rebanho ainda pastoreando vae!
Candido, na paz das solidões dormentes,
Ignorando o mundo
rancoroso e vil
Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
Punha
olhos claros, simples, inocentes,
Na estrellinha d'alva das manhãs
d'Abril!
Levará no esquife para os ceos a palma
Da grandeza mansa, da
virtude austera.
Realisou no mundo a perfeição da Alma:
Porque foi
bondoso como a lua é calma,
Porque foi um santo sem saber que o
era!...
Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
Cesares, tiranos, capitães,
heroes,
Epicas figuras de imortal memoria,
Que de serro em serro
iluminaes a historia
Como crepitantes, tragicos faroes,
Na região do Imenso, no Infinito puro,
Onde me deslumbra, como um
sol, Jesus,
Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
Que
ninguem conhece, que eu em vão procuro
Com meus olhos calmos
n'esse mar de luz!
E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
Que viveu nos montes, que
dormiu nas grutas,
Tão asselvajado, cabeludo e feio,
Que dissereis
quasi que esse monstro veio
Da matriz da terra, como as pedras
brutas,
Já liberto agora da Ilusão do mundo
Fez-se em anjo branco, inda
outra vez pastor:
Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
São
rebanhos d'almas pelo azul profundo
As ovelhas novas do Ti
Zé-Senhor!...
90-91.
VII

*O CAVADOR*
O CAVADOR
Dezembro, noite, canta o galo...
Rouco na treva canta o galo...
--Oh,
dor! oh, dor!--
Aldeão não durmas!... Vae chamal-o,
Miseria negra,
vae chamal-o!...
--Oh, dor! oh, dor!--
Bate-lhe á porta, é teu vassalo,

Que traga a enxada, é teu vassalo,
Miseria negra, o cavador!
O vento ulula... Tremem ninhos...
Na noite aziaga tremem ninhos...

--Oh, dor! oh, dor!--
A neve cae, fria d'arminhos...
Na escuridão,
fria d'arminhos...
--Oh, dor! oh, dor!--
Passa maldito nos caminhos,

D'enxada ao hombro nos caminhos,
Fantasma negro, o cavador!
Vem roxa a estrella d'alvorada...
Vem morta a estrella d'alvorada...

--Oh, dor! oh, dor!--
Montanhas nuas sob a geada!...
Hirtas, de
bronze, sob a geada...
--Oh, dor! oh, dor!--
Torvo, inclinado sobre a
enxada,
Rasga as montanhas com a enxada.
Fantasma negro, o
cavador!
Cavou, cavou desde que é dia...
Cavou, cavou... Bateu meio dia...

--Oh, dor! oh, dor!--
De pé na encosta erma e bravia,
Triste na
encosta erma e bravia,
--Oh, dor! oh, dor!--
Largando a enxada,
«Ave Maria!...»
Resa em silencio... «Ave Maria!...»
Fantasma
negro, o cavador!
Cavou, cavou na serra agreste,
D'alva á noitinha em serra agreste...

--Oh, dor! oh, dor!--
E um caldo em premio tu lhe deste,
Meu
Deos!... seis filhos tu lhe deste...
--Oh, dor! oh, dor!--
Batem
trindades... «Pae celeste!...
Bemdito sejas, Pae celeste!...»
Resa,
fantasma, o cavador!
Cavou cem montes... que é do trigo?!
Gerou seis bocas... que é do
trigo?!
--Oh, dor! oh, dor!--
Bateu a Fome ao seu postigo...
Bateu
a Morte ao seu postigo...
--Oh, dor! oh, dor!--
«Que a paz de Deos

seja comigo!
Que a paz de Deos seja comigo!...»
Disse, expirando,
o cavador!
Junho--91.
VIII
*OS POBRESINHOS*
OS POBRESINHOS
Pobres de pobres são pobresinhos,
Almas sem lares, aves sem
ninhos...
Passam em bandos, em alcateias,
Pelas herdades, pelas aldeias.
É em Novembro, rugem procellas...
Deos nos acuda, nos livre d'ellas!
Vem por desertos, por estevaes,
Mantas aos hombros, grandes
bornaes.
Como farrapos, coisas sombrias,
Trapos levados nas ventanias...
Filhos de Christo, filhos d'Adão,
Buscam no mundo codeas de pão!
Ha-os ceguinhos, em treva densa,
D'olhos fechados desde nascença.
Ha-os com f'ridas esburacadas,
Roxas de lirios, já gangrenadas.
Uns de voz rouca, grandes bordões,
Quem sabe lá se serão ladrões!...
Outros humildes, riso magoado,
Lembram Jesus que ande
disfarçado...
Engeitadinhos, rotos, sem pão,
Tremem maleitas d'olhos no chão...
Campos e vinhas!... hortas com flores!...
Ai, que ditosos os

lavradores!
Olha, fumegam tectos e lares...
Fumo tão lindo!... branco, nos ares!...
Batem ás portas, erguem-se as mães,
Choram meninos, ladram os
cães...
Resam e cantam, levam a esmola,
Vinho no bucho, pão na sacola.
Fructa da horta, caldo ou toucinho,
Dão sempre os pobres a um
pobresinho.
Um que tem chagas, velho, coitado,
Quer ligaduras ou mel-rosado.
Outro, promessa feita a Maria,
Deitam-lhe azeite na almotolia.
Pelos alpendres, pelos curraes,
Dormem deitados como animaes.
Em caravanas, em alcateias,
Vão por herdades, vão por aldeias...
Sabem cantigas, oraçõesinhas,
Contos d'estrellas, reis e rainhas...
Choram cantando, penam resando,
Ai, só a morte sabe até quando!
Mas no outro mundo Deos lhes prepara
Leito o mais alvo, ceia a mais
rara...
Os pés doridos lh'os lavarão
Santos e santas com devoção.
Para laval-os, perfumaria
Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.
E embalsamados, transfigurados,
Tunicas brancas, como em
noivados,
Viverão sempre na eterna luz,
Pobres bemditos, amen, Jesus!...
Outubro--91

IX
*CAMPO SANTO*
CAMPO SANTO
Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!...
Somno d'arminho...
colxão de terra... lençol de flores!...
Cahi dormentes,
Cahi exanimes, trementes,
Palidos silencios do
luar dorido!
Litanias fluidas do luar dorido!
Misereres brancos do
luar dorido!
Balsamos, piedades, orações
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