infinito:
Quem dá ais ó rouxinol,
Lá para as bandas do mar?...
É o meu amor
que na cova
Leva as noites a chorar!...
É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!...
A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
Imponderalisou a natureza
inteira,
Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma...
Triste expira uma voz na canção derradeira:
Ó meu amor, dorme, dorme
Na areia fina do mar,
Que em antes da
estrella d'alva
Comtigo me irei deitar!...
Que em antes da estrella d'alva
Comtigo me irei deitar!...
Maio--91.
VI
*O PASTOR*
O PASTOR
Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
Olha, foi o pobre do Ti
Zé-Senhor!...
Velho tão velhinho nenhum outro havia...
P'ra
cumprir cem anos lhe faltava um dia,
Ha noventa e quatro que era já
pastor.
Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
Já de surrãosito cheio a
tiracol,
A escalar montanhas com ardor, com ancia,
Por pastagens
bravas d'auroral fragancia,
Branqueadinho a neve e doiradinho a
sol!...
A deserta, imensa, rustica paisagem,
Cordilheiras, campos, astros
d'oiro, luar,
Tudo se invertera, por continua imagem,
Em heroica,
em livre candidez selvagem
Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.
Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
Ala para a aldeia, por manhãs
sonoras,
Mordiscando a codea do seu pão centeio,
Arrancando á
frauta um pastoril gorgeio,
Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.
Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
Onde as aguias pairam,
onde o roble medra,
E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
Se
encastelam crespos, infernaes, em lutas,
Tal como tormentas de
trovões de pedra!
Cada serrania alcantilada e brava,
Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e
pó,
Recozida a febre e atordoada em lava,
Lagrimeja apenas d'uma
rocha cava
Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!
E por essas fulvas, ingremes ladeiras
Pastoreava o gado, quasi morto
já:
Só rochedos tristes, nus como caveiras,
E zambulhos, zimbros,
tojos, cornalheiras,
Acres como pragas d'uma boca má!
E depois as torvas, negras invernadas,
Noites formidandas, lobos a
ulular,
Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
Carcavões abertos
pelas enxurradas,
Troncos de sobreiros de raiz ao ar!...
Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
N'um covil de feras, ou algar
deserto!...
E dormia ao lume sem temor, sem medo,
Pois Nossa
Senhora, Virgem do Degredo,
Na ermidinha branca lhe ficava perto...
Mas no mez de Março pincaros maninhos,
Montes cenobitas, d'ossos
e burel,
Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
Com sorrisos d'oiro
que alvoroçam ninhos,
E distilam favos de inocencia e mel!...
Era então alegre como o sol nascente,
Mais feliz nos campos do que
Deos no altar!
Anhos e cabritos, leite rescendente,
Pastos tão
mimosos, que quizera a gente
Transformar-se em ave para os não
calcar!
Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
Tantas inverneiras, sem pesar
ou dor,
Tinham-lhe gravado na expressão robusta
Como que uma
sombra de grandeza augusta,
Junta a uma inocencia matinal de flor.
Que importavam gelos, ventanias, feras?
Peito nu, aberto; construção
de touro!
Quasi me admirava que nas primaveras
D'esse peito rude
não brotassem heras,
Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!
Ao relento a cama no orvalhado pasto,
Cerca dos carneiros e dos bons
lebreus;
Que divino leito primitivo e casto,
Todo embalsamado de
serpol, mentrasto,
Sob a paz imensa do perdão de Deos!...
E esse gigantesco latagão corado
Era, como os santos ermitões, frugal:
Duas azeitonas, queijo do seu gado,
E de rala escura meio pão
migado
N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.
Não jantava morte, assassinato, dores,
Hecatombes tristes que
jantamos nós;
E por isso ria como riem flores,
Atrahindo em bandos
aves de mil cores,
Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!...
Sua rude frauta de pastor ouvindo
Na misteriosa luz crepuscular,
Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
E desabrochava pelo azul
infindo
Soluçante a lua como um nenufar!...
Que trinados vivos, d'argentino encanto
Ai, missa do galo, lhe
inspiravas tu,
N'essa frauta, quando de cajado e manto
Ia deitar loas
ao menino santo
No altar-mór da egreja sorridente e nu!
Fôra lá creança, magica ventura!
Centenario quasi a derradeira vez...
E gorgeava a frauta com egual candura,
Pois a alma virgem,
luminosa e pura,
Conservara-a sempre como Deos a fez.
N'ella penetrava, n'ella se embebia
Tudo que é inocencia, riso, amor,
clarão:
Fremito de pomba, voz de cotovia,
Canticos dos montes ao
nascer do dia,
Lagrimas dos astros pela escuridão!...
Longe dos Pecados de raivosas presas,
Belzebuths famintos d'olhos
de metal,
Longe das horriveis tentações acezas
No torpor dos leitos,
na embriaguez das mezas,
Pululantes larvas, vibriões do Mal,
O pastor ditoso envelheceu ridente
Por despenhadeiros, alcantis,
calvarios,
E na fronte augusta de ermitão, de crente,
Lhe geavam
anos luminosamente,
Como as pombas brancas sobre os
campanarios!
Das ovelhas meigas,--intimas heranças!--
Recolhera toda a abnegação
christã:
Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
Que com vosso
leite sustentaes creanças,
E vestis os pobres com a vossa lã!
Aos noventa anos, festival, risonho,
Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
Sim! inda na boca risos de medronho,
E nos olhos lentos, a tremer
em sonho,
Dois miosotis virgens de candura e fé!
Com seu manto branco de burel grosseiro,
Cans de puro arminho,
baculo na mão,
Alembrava um santo feito pegureiro,
Que eu
desejaria sobre o altar cruzeiro
D'uma ogiva d'astros, em adoração!
Centenario quasi, recordava aspectos
De lendario tronco n'um feliz
vergel,
Moribundo em meio de seus verdes netos,
Com a
Providencia a agasalhal-o em fetos,
Com abelhas d'ouro inda a
nutril-o a mel,
E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
E que cego ao ether de
esplendor ideal,
Com o

Continue reading on your phone by scaning this QR Code
Tip: The current page has been bookmarked automatically. If you wish to continue reading later, just open the
Dertz Homepage, and click on the 'continue reading' link at the bottom of the page.