Luar de Janeiro | Page 3

Augusto Gil
lado um horto e um jardim fragrante,?Sem grades agu?adas para o céu.?A grade é agressiva, hostilisante,
E sempre a impress?o cruel me deu?Dum dono que bradasse ao caminhante:?--Tudo isto aqui é meu, sómente meu...
Sem gradeamento. Um murosito apenas?Revestido de rosas de toucar,?De ariolas, de glicinias, de verbenas.
Muro d'onde os que forem a passar?Vejam lilazes, cravos, assucenas...?--E a paz, a doce paz do nosso lar.
O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO
_Ao Conego Manuel do Nascimento Sim?o_
I
Escrevo em testamento este poema?Que elle tenha, na angustia com que o ligo,?O brilho rutilante duma gemma?Achada nos farrapos dum mendigo...
Ao vesperal crepusculo da vida?E sob o olhar da morte é que o componho;?Erguendo assim, por minha despedida,?O ultimo escal?o dum alto sonho.
Nesse degrau que d'entre os soes dispersos?Hade attingir a cúpula dos céus,?Direi ao mundo os derradeiros versos,?Porei o cora??o nas m?os de Deus!
E as m?os de Deus que os astros têm guiado?Como se leve pluma cada um f?ra,?H?o de o sentir pesar, sollicitado?Pelo logar da terra onde ella móra...
II
...Sei lá pintar!?Se eu soubesse pintar, era pintor.
Guedes Teixeira
Na mais alta cidade portuguêsa?Nasceu, para abrandar meu fundo mal,?A mais santa, a mais cheia de pureza?Das mo?as deste lindo Portugal.
Os seus olhos s?o tristes e suggerem?Todo um passado de resigna??o.?S?o tristes, certamente por n?o verem?O rosto incomparavel onde est?o...
A voz é clara como as assucenas?E dolorida, candida, modesta.?é dolorida, porque sente penas?D'abandonar a sua bocca honesta...
O riso, que é em nótulas delidas?Vibra em seus labios t?o rapidamente?Como um beijo d'amor, ás escondidas,?Na curva duma estrada em que vem gente...
A m?o della, uma vez, poisou na minha;?Pareceu-me ao sentir-lhe a commo??o,?Que era o seu proprio cora??o que eu tinha?A palpitar dentro da minha m?o...
Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,?O sol abraza os longes da paizagem,?A sombra que em sua frente vae seguindo?é a luz--a abrir-se, p'ra lhe dar passagem...
Se passa, acalma os cora??es maguados?Como outr'ora as parabolas de Christo?Acalmavam a d?r aos desgra?ados.?Acalma os cora??es?! N?o... n?o é isto.
As estrophes d'amor, a quem o sinta,?D?o um trabalho cheio de tormento;?O tenebroso liquido da tinta?Apaga, rouba a c?r ao sentimento.
Quiz celebrar dum modo original?As finas gra?as do seu corpo. Errei-as.?Oh Fórma! és como um fato d'hospital.?Palavras! Sois a nevoa das ideias...
MELODIA CONFIDENCIAL
(De Albert Samain)
A L.C.
Num andamento?Discreto, lento,?Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.
Vamos vogando?No lago brando?E sem limites do silencio amigo...
O ultimo e cavo?Accorde do cravo?Ficou vibrando exclamativamente.
E, em espiral?Ascencional,?Cingiu-nos num abra?o enlanguescente.
Na alcatifa macia?Entrou na agonia?Uma rosa sedenta e abandonada,
E a ambos nos invade?A mistica vontade?D'entrar na morte, no n?o ser, no nada...
Com seu docel vermelho?Forrado d'oiro velho,?Que evoca velhas eras d'esplendor,
O leito pesado,?Como um deus concentrado,?Remembra obscuramente o nosso amor...
Na atmosphera morna?O teu corpo entorna?Um perfume subtil, sensual, complexo,
Aroma inapagavel,?Philtro informulavel?Gerado á chama clara do teu sexo.
Teus olhos silentes?E transparentes?Teem, no fundo, verdes melancolicos,
E as brazas do fog?o,?Já quasi extinctas, d?o?Clar?es hypnotisantes e symbolicos...
Amêmo-nos assim?Com um amor sem fim,?Verdadeiro na carne e nas ideias;
P'los dedos enla?ados?Sejamos penetrados?D'amor, até ás mais miudinhas veias.
Em extasis intensos?Quedemo-nos suspensos?Por sobre a terra ironica e brutal
Sem nada saber,?Sem nada ver,?--Numa vida isolada e musical...
N?o fales. N?o??Ou se o fizer's, ent?o?Que seja de vagar, muito baixinho,
Numa toada, leve?Como o halito breve?Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho...
O PASSEIO DE SANTO ANTONIO
A Columbano
La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables pretextes à fiction qu'il recèle.
(_Litterature à Tout á L'Heure_.)
Sahira Santo Antonio do convento,?A dar o seu passeio costumado?E a decorar, num tom rezado e lento,?Um candido serm?o sobre o peccado.
Andando, andando sempre, repetia?O divino serm?o piedoso e brando,?E nem notou que a tarde esmorecia,?Que vinha a noite placida baixando...
E andando, andando, viu-se num outeiro,?Com arvores e casas espalhadas,?Que ficava distante do mosteiro?Uma legua das fartas, das puxadas.
Surprehendido por se vêr t?o longe,?E fraco por haver andado tanto,?Sentou-se a descan?ar o bom do monge,?Com a resigna??o de quem é santo...
O luar, um luar clarissimo nasceu.?Num raio dessa linda claridade?O Menino Jesus baixou do céu,?Poz-se a brincar com o capuz do frade.
Perto, uma bica d'agua murmurante?Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.?Os rouxinoes ouviam-se distante.?O luar, mais alto, illuminava mais.
De bra?o dado, para a fonte, vinha?Um par de noivos todo satisfeito.?Ella trazia ao hombro a cantarinha,?Elle trazia... o cora??o no peito.
Sem suspeitarem de que alguem os visse,?Trocaram beijos ao luar tranquillo.?O menino, porém, ouviu e disse:?--Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?...
O santo, erguendo a manga de burel?Para tapar o noivo e a namorada,?Mentiu numa voz doce como o mel:?--N?o sei que fosse. Eu cá n?o ouvi nada...
Uma risada limpida, sonora,?Vibrou com timbres d'oiro no caminho.?--Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora??--Ouvi, Senhor, ouvi. é um passarinho...
--Tu n?o estás com a cabe?a boa...?Um passarinho a cantar assim!...?E o pobre Santo Antonio de Lisboa?Calou-se embara?ado, mas por fim,
Córado como as véstes dos cardeaes,?Achou esta sahida redemptora:?--Se o Menino Jesus pregunta mais,?...Queixo-me á sua m?e, Nossa
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