Á hora do crime | Page 6

Francisco Luiz Coutinho de Miranda
collossal, que
assombra a patria, e a Europa, e o mundo; mas sou velho, e na friesa
que dão os sessenta annos, e na impassibilidade filha de uma longa

experiencia, vejo as cousas por um prisma tristissimo, fatal! Vejo que
quando o italiano fôr o senhor d'este paiz, por mais altivo e orgulhoso
que o povo hespanhol seja, o jugo ferreo do despotismo ha de vir em
seguida comprimil-o nas cadeias de escravo, e a emancipação da patria
ficará por isso longamente addiada, porque as hecatombes e as
carnificinas hão de levar o desanimo onde hoje existe o enthusiasmo,
hão de levar a indifferença onde hoje vive o amor da patria!
D. EMILIO
(Com gesto sublime) Basta velho! Que o ancião não pronuncie jámais
em presença de correligionarios seus tão eloquentes palavras de
descrença! A fé e a esperança são principios religiosos do christão, e
devisa inalteravel do democrata! E christãos, e republicanos somos nós,
para que aos nossos ouvidos possam chegar a descrença e o desespero,
apostolados por um dos nossos! Reanima-te, nobre ancião! soldado
velho da liberdade! evangelisador sincero da republica! O futuro, se
não é risonho e festival, não é completamente negro e carregado de
nuvens procellosas! A republica tem feito grandes conquistas no
mundo! Na França opéra milagres! na Suissa dá nobres exemplos! na
America offerece lição proficua! no nosso irmão e amigo Portugal cria
profundas raizes! e até na propria Prussia produz phenomenos, porque
ao passo que os exercitos devastadores do autocrata allemão talam os
campos verdejantes da bella França, para asphyxiar a democracia, o
povo de Berlim, que é povo, e que por isso é nobre, e generoso, e
republicano, como todos os seus irmãos no mundo, elege para seu
representante ao parlamento o chefe ostensivo do partido republicano
d'Allemanha! E é n'esta conjunctura, que a voz auctorisada de um velho
respeitavel ha de trazer o desalento ao espirito dos valentes campeões
da democracia hespanhola?... Não, D. Ramon! O futuro é nosso! Ao
triumpho completo da França, e elle ha-de vir, deve seguir-se o
derrocamento dos thronos! Á emancipação do povo francez
seguir-se-ha a emancipação da Europa! A derrota do tyranno allemão
deve necessariamente ser o signal da queda de todos os despotas do
mundo!
(Durante esta falla tem entrado successivamente pelo fundo muitos

individuos, e pela porta lateral D. Carlos, que recebe todos com
cordialidade e affecto.)
TODOS
Apoiado!... Muito bem!... É assim!...

SCENA V
*Os mesmos, D. Carlos, e os recem-vindos*
D. EMILIO
(Voltando-se para o fundo) Eil-os, os nossos amigos! Em todos a
mesma fé! Em todos a mesma esperança!
D. RAMON
(Aos recem-chegados) Conversavamos, eu e D. Emilio, acerca do
futuro do paiz, e do obstaculo, não insuperavel, que a eleição do rei
pode trazer é realisação dos nossos desejos!
D. EMILIO
Tratemos porém agora do assumpto que aqui nos traz hoje. (A D.
Ramon) D. Ramon, occupae a presidencia, vós, que sois o mais velho.
(A D. Carlos) E vós, D. Carlos, exporeis as rasões que vos
determinaram a convocar esta reunião dos nossos amigos.
D. RAMON
(Occupando a presidencia) Acceito, não por vaidade; mas por
condescendencia. Este logar pertence de direito ao honrado chefe do
partido republicano hespanhol; que, modesto até ao extremo, nem
mesmo entre os seus mais intimos e mais leaes amigos quer ser o
primeiro; quando a verdade é que nenhum de nós se lhe avantaja, nem
em talento, nem em virtude, nem em dedicação!

TODOS
Apoiado! Apoiado! (D. Emilio agradece com o gesto)
D. CARLOS
Meus senhores, o rei está a chegar, o general Prim parte esta noute para
Cartagena, a fim de o acompanhar a Madrid; é mister pois que o partido
republicano tome uma deliberação definitiva ácerca do procedimento
que deve adoptar no dia da coroação do italiano.
UMA VOZ
Formule a sua proposta.
D. CARLOS
(Continuando) É o que vou fazer. Eu proponho que nós todos
empreguemos os esforços possiveis, para que os nossos
correligionarios madrilenos, sem excepção de um só, se apresentem
vestidos de lucto pesado no dia da chegada de Amadeu a Madrid. Creio
que faremos assim uma imponente manifestação, visto que imperiosas
rasões partidarias obstam a que ella seja mais ruidosa e mais energica.
É um protesto solemne contra a invasão ambiciosa do estrangeiro, e ao
mesmo tempo um aviso ao seu espirito, que verá de certo no lucto do
povo um argumento vehemente contra os que por adulação, por
servilismo, por vil baixesa lhe hão de dizer no paço real, que elle
inspira amor áquelles que só sentem por elle profunda indifferença, se
não lhe votam do intimo d'alma rancor e odio!
D. EMILIO
Approvo a idéa; mas peço para fazer uma observação, talvez
desnecessaria. A manifestação dos republicanos deve ser digna e nobre,
para ser magestosa! Envidemos toda a nossa energia, ponhamos em
acção toda a nossa actividade,
Continue reading on your phone by scaning this QR Code

 / 12
Tip: The current page has been bookmarked automatically. If you wish to continue reading later, just open the Dertz Homepage, and click on the 'continue reading' link at the bottom of the page.