hoje reside o desespero, onde paira a
indignação, onde bate por ventura as azas o demonio da vingança?
IZABEL
Não.
D. CARLOS
(Preoccupado) Não... sim... não outra vez!... Que tens tu, Izabel?...
Respondes apenas por monosyllabos ás minhas carinhosas
interrogações?... Que tens tu, minha irmã?
IZABEL
Nada!
D. CARLOS
Nada, e eu vejo-te os olhos pisados!... Nada, e tu choras!... Desafoga
commigo, Izabel!... Teu irmão ainda tem coração para recolher os teus
pesares, e amor bastante para te prodigalisar consolações!
IZABEL
(Com desalento) Martinez... o meu querido Martinez, parte esta noute
para Cartagena, em companhia de Prim, que vae ali esperar o novo rei!
Comprehendes agora a rasão dos meus monosyllabos, a causa das
minhas lagrimas, origem dos meus pesares?
D. CARLOS
(Tranquilisando-a) E que tem isso? O rei vem; mas isso não quer dizer
que conseguirá firmar solidamente uma dymnastia! Epoca virá, e talvez
pouco distante, em que a nação lhe indique solemnemente o caminho
da sua patria! Se Martinez vae hoje, como ajudante do general, que se
disse democrata no exilio, e que tão mal comprehendeu no poder a sua
brilhante posição, esperar o rei que é imposto á nação hespanhola;
talvez que em breve, convertido á crença democratica, elle vá, general
da republica, fazer embarcar no mesmo porto o desvairado mancebo,
que tão facilmente se deixou fascinar peio brilhantismo de uma corôa,
que não é sua, e que de certo é pesada de mais para cabeça tão jovenil!
IZABEL
(Com receio) E se um tiro traiçoeiro, cortando o ar n'um ermo, vier
feril-o, em vez de ferir Amadeu ou Prim?
D. CARLOS
(Sorrindo) Que lembrança! Em Hespanha o partido mais forte é o
republicano, por que é aquelle que tem mais crentes retemperados na fé
do martyrio; e por isso o rei e o general, e todo o sequito de Amadeu, e
toda a comitiva de Prim, passarão illesos por entre a indifferença
publica! O assassinato é um crime, e os republicanos não ferem o
adversario senão no campo convencional da honra, ou no campo franco
e aberto da batalha leal!
IZABEL
Sinto que tens rasão; mas sinto tambem que se me comprime a coração
nos horrores da duvida; apavoram-me os terriveis presentimentos que
me assaltam o espirito!
D. CARLOS
(Offerecendo-lhe o braço) Vem commigo destrair-te. É o amor que te
faz delirar assim! Vem commigo! (Izabel dá-lhe o braço, e saem ambos
pela porta leteral).
SCENA IV
*D. Emilio e D. Ramon*
D. RAMON.
(A D. Emilio--do fundo) É infelizmente assim, meu caro Castellar.
Desde que aquelles hespanhoes, menos ciosos da velha dignidade
castelhana, votaram na constituinte um rei estrangeiro, a minha fé
continuou inabalavel; mas a minha esperança no futuro diminuiu
consideravelmente!
D. EMILIO
E porque, estimavel D. Ramon?
D. RAMON
Porque o moço inexperiente; mas ambicioso de certo, que
imprudentemente trocou o bem estar e socego, pelos espinhos
agudissimos da corôa d'Hespanha, pode ser um bom rapaz, e é-o
decerto; pode possuir um coração bem formado, e creio que o possue;
pode mesmo desejar abrir na historia nossa patria uma era brilhante de
beneficios, de liberdades, de tolerancias; mas é rei, e por mais digno
que seja o seu sentir, por mais nobres que sejam as suas aspirações, hão
de em pouco transformal-o em tyranno, em despota, em liberticida, os
aulicos que hão de cercar-lhe o throno, as camarilhas que hão de
insinuar-se no seu animo para lhe dominar a vontade, os maus cidadãos,
emfim, que mais dão rasão de ser ao credo republicano, e que todos os
dias, e a todas as horas, e em todos os instantes lhe conquistam adeptos,
encaminhando os principes pela vereda fatal do erro, impellindo-os
cynicamente para o plano inclinado onde se tem despenhado tantos,
tantos!... arrastando comsigo as nações cujos destinos dirigiam!
D. EMILIO
Tem rasão em seus receios, D. Ramon; mas não a tem na sua descrença!
Mau é que um rei venha matar as esperanças mais fagueiras que o povo
hespanhol concebeu, quando, ao grito do triumpho magestoso da
revolução de Cadix, viu cahir a pedaços o throno apodrecido d'essa
mulher, que tanto sangue custou á nossa nobre terra! E peior é que esse
rei, imposto á livre e orgulhosa Hespanha, seja um estrangeiro! O nosso
proverbial orgulho, esse orgulho indomavel, que tornou sempre
respeitados os cavalheirosos filhos d'Hespanha, sente-se ferido de
morte na mais vulneravel das suas manifestações! Mas que importa isso?
Quanto mais o justo orgulho, a nobre altivez de um povo se sente
abatida e humilhada, tanto mais violento é o esforço supremo que deve
dar-lhe a desaffronta, e com a desaffronta a liberdade! Tenha fé no
futuro, D. Ramon!
D. RAMON
Fé!... Sei que a sua é viva e sincera, Castellar; não ignoro quanto a
patria deve á sua dedicada abnegação e ás suas profundas convicções;
sou o mais enthusiastico admirador desse talento

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