Contos para a Infância | Page 4

Guerra Junqueiro
tanto por ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela manh?, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava que o vissem no meio da erva e n?o fizessem caso dele, pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, sentia-se t?o feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crian?as sentadas nos bancos da escola estudavam a li??o, ele, sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo o que sentia misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com admirável nitidez nas can??es alegres da cotovia. Por isso p?s-se a olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha feliz que cantava e voava.
?Eu vejo e oi?o, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! n?o tenho raz?o de me queixar.?
Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para parecerem maiores do que as rosas; mas n?o é o tamanho que faz a rosa. As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se pretensiosamente. N?o se dignavam de lan?ar um olhar para o pequeno malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: ?Como s?o ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visitá-las. Gra?as a Deus, poderei assistir a este belo espectáculo.? E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu voo, n?o para as dálias e tulipas, mas para a relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria n?o sabia o que havia de pensar.
O passarinho p?s-se a saltitar à roda dele, cantando: ?Como a erva é macia! oh! que encantadora florinha, com um cora??o de oiro, vestida de prata!?
N?o se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora n?o p?de o malmequer reprimir a sua como??o. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a cabe?a toda inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.
?Que desgra?a! disse o malmequer suspirando; é horrível; foram-se todas.?
E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
No dia seguinte de manh?, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas raz?es para se afligir: haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens através do espa?o ilimitado.
O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era difícil. A compaix?o pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura resplandecente das suas próprias folhas.
Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na m?o uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que n?o podia compreender o que desejavam.
?Podemos arrancar daqui um peda?o de relva para a cotovia, disse um dos rapazes, e come?ou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
--?Arranca a flor, disse o outro.?
A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era morrer; e nunca tinha aben?oado tanto a existência, como no momento em que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
?N?o; deixemo-la, disse o mais velho. Está aí muito bem.?
Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia com as asas nos arames da gaiola. O malmequer n?o podia, apesar dos seus desejos, articular-lhe uma palavra de consola??o.
Passou-se assim toda a manh?.
?Já n?o tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, tenho uma febre terrível, sinto-me abafada! Ai! N?o há remédio sen?o morrer, longe do sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas
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